Agora - neste preciso momento - não escrevo; penso, dito e
aparece escrito. Parágrafo por parágrafo. Parece benéfico, mas enganem-se. É
como estar embrulhado num manto de lençóis mas totalmente esperto. É como ficar
estático em qualquer lugar onde permaneço mais de três segundos. Cinco passos,
meia volta e fico parado. Das duas uma: ou sou eu ou são as coisas. Ainda
pondero que sejam as coisas, a sua energia, sei lá, mas rapidamente volto ao
discernimento. Há um proveito nesta situação: consigo raciocinar. O discernimento
parece que ficou de fora desta espécie de preguiça. Eu, pensando melhor, nem
lhe vou chamar preguiça, marasmo ou apatia. O nome dela é mesmo inércia.
Nem sempre é fácil viver com a inércia. Tem dias, como se
costuma dizer. Bom é cada um na sua mas ela não se solta e lá estou eu
novamente no sofá, de comando na mão, apesar de a televisão estar desligada.
Outra vez inercia?, ainda pergunto, embora em vão. E eu com tanta coisa por
fazer. A cama, por exemplo. Nem penses inércia mas ela apodera-se de mim.
Maldita sejas inércia. E a cama fica por fazer. Ela, e tantas outras coisas
importantes na vida. Vejo-me obrigado a pedir ajuda, a gritar socorro. Mas
nada, nem genéricos. Porra, uma vez, duas, três, ainda vai, agora sempre
inércia? Tem dó de mim. Nos altos e baixos das próprias impermanências da vida não
me podes fazer bem. Não fazes bem a ninguém. E agora é à janela, a ver
passar os aviões do sétimo andar aonde me encontro. Parvo, ainda tenho vontade
de lhe dizer anda comigo ver os aviões, mesmo que me pareça pouco original.
Em boa hora não o faço. E continuo parado à espera de um qualquer sinal que me
faça sair desta coisa que se cola e pelos vistos não descola. Parado, às vezes
de mãos nos bolsos como que a contar tostões sobre um olhar nem sempre
simpático. Volta e meia mudo de sítio. Deve ser quando a inércia está de costas
mas para quê que falei e fico parado novamente em frente ao frigorífico a
pensar o que é o jantar. Não sei como a porta se abre mas continuo parado a ver
um frasco de maionese como se estivesse a viajar. Mas se imóvel fico, quieto
fiquei. Até que deixo de ser a atração e consigo mudar de lugar. Parece que
oiço foge mas sofro uma operação stop. Aqui estão os documentos agende inércia.
E fico-me. Parado. Sem actividade, somente a olhar. A pensar, sem movimento. A
olhar e a pensar. Tirando este segundo, em que finalmente consigo clicar em “publicar”.