1 de fevereiro de 2013

Do ar que me foram dando


Desde o início deste ano obtive uma redução de nove por cento no meu ordenado. Sou jovem, e não é o meu primeiro emprego. Tão pouco resgate financeiro. Mostrei-me orgulhoso. Afinal esforço-me. Nunca tive uma falta ou um atraso significativo. Para poupar passo a apanhar dois transportes para o trabalho. Casa no centro esquece. No entanto, estava satisfeito: acordar cedo e cedo erguer dá saúde e faz crescer. Além da Troika, havia a palavra duodécimos. Que alivio. Passado um mês, o chefe informa-me doutro corte salarial. Mais sorrisos, mais agradecimentos, outra mudança. Sete da manhã no despertador e um segundo emprego. Ah, e mais um transporte. Em compensação comia menos. Ganhava na forma. Prosseguia a luta. No mês seguinte, nada de extraordinário aconteceu. Nisso perdi o sono preocupado com a ausência de acontecimentos. Dia seguinte volto ao gabinete do chefe. Respirei fundo. Têm um grande reconhecimento pela pessoa mas também têm que rebaixar a categoria e consequentemente a transferência no fim de cada mês. Contente? Radiante. E voltei ao trabalho. Mais uma vez mudei-me. Finalmente deixei de jantar. Sentia-me mais leve e ágil. Não havia necessidade de muita roupa. Eliminei despesas inúteis, da lavandaria por exemplo. Mas - e estamos cá para isso - horas extraordinárias em ambos os trabalhos. Mais impostos, é claro. Chegava a casa às onze da noite, levantava-me às cinco da madrugada. Em dias de greve, meia hora mais cedo para garantir lugar nos alternativos. Se houvessem, mas para ir trabalhar até um rio atravessava. Mesmo a nado. O ano foi passando, com mais um e outro aperto mas via-me grego para cumprir com os todos os compromissos económicos. “Afinal não chega”, leio certo dia no jornal. A emoção impediu qualquer contestação. Naquele momento o coração parou. A juntar, nova chamada ao gabinete. O juízo congelou. ”Está mau”, “corte” e “acabou o café” é o que me lembro. Nisso marco consulta no oftalmologista pois deixei de ver a luz, principalmente ao fundo do túnel. Passados doze meses receitam-me uma teleobjectiva 800 mm e a vida continua. Enfim, ainda tinha meias nos pés, não um pé-de-meia. Sentia-me cansado mas atingia todos os meus propósitos. Nessa noite, não pensei em nada. Dormi pacífico no silêncio dos subúrbios. Afinal tinha trabalho por conta de outrem. Baixei a cabeça em sinal de modéstia. E, de certa maneira, gratidão. E tranquilizava-me pensar que ainda havia políticos, não honestos, mas realmente capazes. Hipnotizava-me com uma classe que não queria só poleiro, que planeava todo o nosso bem. Contudo o organismo não se acomodava à resignação. Uma vez por outra, como benesse, lá saboreava os complementos da existência. De borla, é claro. Mas se fosse preciso fugia para laborar ao fim dos primeiros acordes de Happiness is an inside job. E assim andei. Eu e mais uns milhões ao passo que outros permaneciam impávidos e serenos, seguros num sistema pedestal.
Aos sessenta e cinco anos o meu vencimento equivalia a cinco por cento do inicial. Não tinha problemas de morada ou vestuário. Vivia dos campos, entre árvores refrescantes, coberto de rugas sorridentes e alimentado por um Sol ainda gratuito. Todos os dias, uma boleia anónima transportava-me ao trabalho. Quando completei quarenta anos de descontos, fui convocado pela administração: - “Parabéns, você conseguiu!” Finalmente fiquei livre de taxas e contribuições. Passei a viver do ar que se me deu.

4 comentários:

  1. É o desejo para o (de um) futuro?
    Esta história é a de todos. Tristeza..

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  2. Nunca um desejo mas uma legítima preocupação. Flour, de quase todos: há uns que continuam “num sistema pedestal”.

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  3. Tens toda a razão, é esse sistema pedestal que foi, ano após ano, comprometendo o futuro dos outros e que, por azar, acabou por explodir na nossa geração. É difícil não "desejar" (agora sim) soluções radicais que eliminem de vez a posição do pedestal. E diria que é impossível vivermos orgulhos do nosso desempenho quando isso não se traduz numa natural e mais que justa compensação, seja esta do formato que for. Enfim.

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