19 de janeiro de 2013

Acto único


No dia em que me perguntaram “quer cortar?”, foi o dia em que tudo mudou por completo. Para melhor, diga-se. Como é óbvio não me refiro a um corte de cabelo, nem mesmo à máquina zero. Também não falo de outros cortes que todos - ou quase – somos obrigados a fazer, por exemplo na cultura. Também não. Mas foi o contrato da minha vida. Naquele dia, se me pedissem um flic flac à rectaguarda, eu fazia. Se fazia. Isto porque estava ali para ajudar e se uma cambalhota artística ajudasse, pois está claro que fazia. Mas não. Quando me deram a tesoura para a mão nem gaguejei. Não porque sou um corta fitas, mas porque a minha tarefa era auxiliar e na pergunta estava na minha vez de entrar em acção. Claro que, naquele dia e no meu papel, já tinha feito muita coisa, mas não assim tão imponente. Antes já me tinham dito “esquece tudo o que viste”. Agora concordo, não há quimera igual. Tenho a ocorrência gravada na mente, e isso basta-me. Também tinha umas noções do que seria dali para a frente, por ouvir histórias, testemunhar de perto, até ver na televisão, e assim tirar as minhas ilações. Que as preocupações passam a ser enormes, num quase constante estado de alerta. E geral. Que é uma fonte de alegria. Se é. Que é uma das melhores coisas desta vida. Sim, muito. Que é uma bênção. Sem dúvida. Que toda a vida dá uma volta muito grande mas muito positiva. De facto. Que haverão muitas interrogações sobre a qualidade do desempenho do personagem. Bastantes. Que há quem não mereça tal privilegio. Infelizmente. Que há quem queira, seja vocacionado e não pode. Duplamente infelizmente. Em suma, tendo a sorte e o atributo, é um grande mas bom desafio. E sem mais papas na língua, fiz o que me pediram para fazer. Sabia que o meu acto era simbólico, até porque havia figuras bem mais influentes na sala. Uns profissionais e uma mãe, que também pode ser uma profissão, onde o retorno não se tira por extracto. Não só naquela data, mas todos tivemos o nosso papel naquele dia. Uma actriz principal, sem ela não havia história; uns assistentes essenciais, competentes, e o fulano que se for preciso faz uma pirueta. Papéis dados, bastou tentar seguir o texto à risca. Eu, lembrando agora de uma música dos Editores, nesta caso Smokers outside the hospital doors, quis e tive a sorte de estar em palco. Se me fizessem daqueles inquéritos, onde perguntam de zero a dez, “aconselhava este momento a um amigo seu?”, a minha resposta era -e é - mil! Todavia a minha deixa não era só uma, mas também assegurar que todos saíssemos dali em ombros, mesmo que ainda nem conseguíssemos pestanejar. Fiz, talvez, a minha maior actuação, sem rede e em directo, mas as palmas vão todas para a mãe, pois deu sangue, suor e lágrimas numa magnífica louvação. Digo-vos, a natureza é um espectáculo.
Só passados uns dias é que deixei de sentir a fragrância daquele momento. Não por sem má, mas porque ficou. E que fica. E pelo cheiro está-me agora a perguntar o que é o jantar.  

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