Sinto-me vazio, mas não desidratado. Talvez fosse melhor o
contrário. Nem sei. Tudo foge de mim, até a vontade ou o querer. Mesmo assim
obrigo-me a vestir o casaco só porque está frio. Faço tudo mecanizado. Mesmo o
respirar. Enxaguo algumas lagrimas. Nunca as minhas. Essas precipitam-se quando
mais as quero controlar. Já houve outra circunstância assim mas agora é
diferente. Aliás, tudo é diferente. Actualmente sofro com todas dores do mundo.
Principalmente das crianças. Agora sou abalroado por melodias tristes fazendo
crer que ainda não se compuseram outras. Mentira. E isso custa-me. Em
compensação, se a houver, estas palavras brotam fluentemente. Considero que
as tristezas não pagam dividas mas amparam a escrita. Talvez. Escrever é, por
vezes, um completo estado de inexistência. Noutro dia atravessei a estrada sem
olhar nem para a esquerda nem para a direita. Mantive o olhar sempre na
passadeira. Já em casa há assoalhadas das quais não consigo entrar. Ainda
encontro o vazio em algumas partes. O tecto, esse, ainda não me caiu em cima.
Contudo já o ouvi ranger. Nisto, atraem-me os vinte cigarros que calculam as
horas do meu dia. Ora conta feitas, afinal são bem mais que vinte. Enfim. A
somar, esta maré puxa-me para bares às moscas. Estarei em família? O meu olhar
sincela-se ao gelo e não à bebida. Essa desaparece facilmente.
Assusto-me com o telefone. Não pelo toque, mas pela ausência de total proximidade
do outro lado. Mais frases invadem-me a cabeça e nessas alturas nunca tenho uma
caneta e um papel à mão. Nem em noutras alturas, tipo quando quase me
atropelavam e nem pararam para ver se estou bem. Eram seis caracteres de uma cor
com marca, carro cheio mais uma mão cheia de frases bem conseguidas. Limpo
consciências alheias. Não são os únicos a negligenciar o meu estado mesmo quando
atravesso no local certo. Sem mágoas o vazio continua. E começa a dar que
pensar. Também que escrever. As paredes da casa começam-se a mexer. Oiço ranger.
Entendo gritos. O tremor é a denominação. A intimidade dos vizinhos acaba-me de
entrar pela casa. O tecto, felizmente, continua no seu sitio. Admito, faltam-lhe
os cadeeiros. Sei que coisas não se fazem sozinhas, tal como há coisas que não
se fazem desacompanhado. Até mesmo escrever. Mesmo assim, as palavras continuam
e rapidamente as guardo. O computador dá uma ajuda. Afinal não estou sozinho. A
intermitência do cursor acompanha o ritmo do meu coração.
"Escrever é, por vezes, um completo estado de inexistência." Subscrevo-te cegamente. E aqui, nestes espaços, ou na ausência deles, há um certo conforto. E a companhia de quem lê. Essa estará sempre por cá.
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