19 de fevereiro de 2013

O sétimo pecado

Agora - neste preciso momento - não escrevo; penso, dito e aparece escrito. Parágrafo por parágrafo. Parece benéfico, mas enganem-se. É como estar embrulhado num manto de lençóis mas totalmente esperto. É como ficar estático em qualquer lugar onde permaneço mais de três segundos. Cinco passos, meia volta e fico parado. Das duas uma: ou sou eu ou são as coisas. Ainda pondero que sejam as coisas, a sua energia, sei lá, mas rapidamente volto ao discernimento. Há um proveito nesta situação: consigo raciocinar. O discernimento parece que ficou de fora desta espécie de preguiça. Eu, pensando melhor, nem lhe vou chamar preguiça, marasmo ou apatia. O nome dela é mesmo inércia.    
Nem sempre é fácil viver com a inércia. Tem dias, como se costuma dizer. Bom é cada um na sua mas ela não se solta e lá estou eu novamente no sofá, de comando na mão, apesar de a televisão estar desligada. Outra vez inercia?, ainda pergunto, embora em vão. E eu com tanta coisa por fazer. A cama, por exemplo. Nem penses inércia mas ela apodera-se de mim. Maldita sejas inércia. E a cama fica por fazer. Ela, e tantas outras coisas importantes na vida. Vejo-me obrigado a pedir ajuda, a gritar socorro. Mas nada, nem genéricos. Porra, uma vez, duas, três, ainda vai, agora sempre inércia? Tem dó de mim. Nos altos e baixos das próprias impermanências da vida não me podes fazer bem. Não fazes bem a ninguém. E agora é à janela, a ver passar os aviões do sétimo andar aonde me encontro. Parvo, ainda tenho vontade de lhe dizer anda comigo ver os aviões, mesmo que me pareça pouco original. Em boa hora não o faço. E continuo parado à espera de um qualquer sinal que me faça sair desta coisa que se cola e pelos vistos não descola. Parado, às vezes de mãos nos bolsos como que a contar tostões sobre um olhar nem sempre simpático. Volta e meia mudo de sítio. Deve ser quando a inércia está de costas mas para quê que falei e fico parado novamente em frente ao frigorífico a pensar o que é o jantar. Não sei como a porta se abre mas continuo parado a ver um frasco de maionese como se estivesse a viajar. Mas se imóvel fico, quieto fiquei. Até que deixo de ser a atração e consigo mudar de lugar. Parece que oiço foge mas sofro uma operação stop. Aqui estão os documentos agende inércia. E fico-me. Parado. Sem actividade, somente a olhar. A pensar, sem movimento. A olhar e a pensar. Tirando este segundo, em que finalmente consigo clicar em “publicar”.

4 comentários:

  1. Essa malandra.. se não fosse essa seria outra. Ela ou a sua antítese, há sempre uma voz que diz foge e outra que diz, deixa-te ir.

    ResponderEliminar
  2. Não necessariamente até porque o personagem é uma pessoa que se dá bem com toda a gente. O “problema” é mesmo com a inércia que não faz bem a ninguém.

    ResponderEliminar
  3. Acho que em doses muito pequenas, mas mesmo doses minúsculas não é mau. Às vezes preciso dela para pensar, arrumar sentimentos...

    ResponderEliminar